Por Pedro Alexandre Sanches (para o portal IG)

Em julho de 2009, a gravadora Som Livre bolou para sua recém-contratada Maria Gadú um show pequeno, intimista, num bar barulhento de Paraty (RJ).
O objetivo era apresentar a jovem cantora e compositora a “formadores de opinião” presentes na Flip (Feira Literária Internacional de Paraty).
O disco de estreia homônimo estava sendo lançado por aqueles dias, e quase ninguém sabia quem era aquela menina de visual levemente agressivo, que cantava com incrível suavidade, acompanhada apenas por seu violão e uma percussão.
Exatamente um ano depois, Gadú está instalada num palco gigante, no centro de um cenário pomposo e de uma banda numerosa, diante da platéia lotada do Credicard Hall, casa de shows de São Paulo com capacidade para mais de 7 mil pessoas.
É a gravação de seu primeiro DVD, programado para lançamento em outubro, dentro da série televisiva “Multishow ao Vivo“. Tudo aconteceu rápido demais para essa menina paulistana de 23 anos de idade.
São inegáveis as qualidades artísticas de Gadú, assim como são as de tantos outros cantores e compositores da mesma geração, que dividem com ela um estreito e estrangulado cenário.
O que a distingue e a fez girar do 8 ao 80 em 365 dias é menos o talento individual de Gadú, e mais a parafernália que se organizou em torno dela.
A Som Livre é a gravadora das Organizações Globo, que trabalham diuturnamente para transformar sua eleita num sucesso nacional.
Nessa temporada, Maria esteve presente nas trilhas sonoras das novelas Viver a Vida e Cama de Gato e da série Cinquentinha, e regravou “Rapte-Me, Camaleoa”, de Caetano Veloso, para a atual Ti Ti Ti.
A rota de ascensão começou quando o meloso dramalhão Viver a Vida, de Manoel Carlos, serviu-se da grudenta balada “Shimbalaiê”, composta por Gadú quando tinha 10 anos.
Foi o primeiro passaporte para que o primeiro CD conseguisse ultrapassar a difícil marca das 100 mil cópias vendidas, segundo a Som Livre.
No palco, Gadú esbanja tímida simpatia, mas comporta-se como a menina que é, por vezes pequena demais para tamanho palco e tamanha responsabilidade.
Suas doces composições soam imaturas, um tanto parecidas umas com as outras, mas se mostram eficazes e são cantadas em coro pela platéia ligada na semelhança das melodias – e obediente aos comandos globais.
Como intérprete, ela exibe alguns de seus melhores dotes ao cantar “Lanterna dos Afogados“, dos Paralamas do Sucesso, alongando suas sílabas e revelando-a ainda mais cativante do que já era.
Inevitavelmente, faz lembrar uma de suas referências mais evidentes, Cássia Eller, que cantava uma versão bem mais áspera de “Lanterna dos Afogados”.
Mas mostra não ter uma identidade de intérprete plenamente definida, ao cantar “A História de Lilly Braun“, que quase todas as intérpretes brasileiras cantam, do modo como quase todas cantam.
E o povão de classe média para cima do Credicard Hall bebe Chico Buarque pela garganta suave de Gadú.
O caos ameaça se instalar quando a menina cede vez para uma interminável equipe de intérpretes masculinos que formam seu time, sua turma, sua patota.
Primeiro canta com eles, depois senta num inacreditável sofá para vê-los cantar, enquanto o show cria uma enorme barriga – o público conversa, brigas ameaçam eclodir no meio da pista, adolescentes passam mal na fila do gargarejo.
Alguém (as Organizações Globo?), parece ter ensinado a Gadú a “arte” do compadrio sem limites, e o leve descontrole que se instala nesse momento mostra que a suave menina tem tudo para crescer quanto quiser, mas por enquanto ainda é pequena demais para tanta responsabilidade, tanta regra e tanta convenção.
Crítica escaneada do site www.tvpitaco.com.br

Mais de 20 cenas no mesmo bloco. Mesmo em capítulo de estréia que tem o 1º bloco estendido foram muitas cenas.
Acelere se quiser acompanhar o ritmo de “TiTiTi“. Um casal gay normal. Um André Arteche se jogando nas firulas. Um Gustavo Leão transbordando carisma. Caio Castro retocado, amadurecendo em cena, bem dirigido e com vontade de fazer valer a pena o protagonista.
Cenários e figurinos coloridos sem cair no exagero. Trilha sonora passeando de Decadence Avec Elegance do Lobão até Nenhum de Nós, parando em Ney Matogrosso.
Fernanda Souza construindo uma outra garota de sucesso pra fazer companhia à Mili, Mirna e Isadora. Giulia Gam emprestando seu rosto, sua história e sua idade para uma mãe beata. Guilhermina Guinle mostrando que é a melhor pessoa pra fazer mulheres ricas.
Texto de Maria Adelaide Amaral amarra. Faz novela com novelo enredado o bastante para sete meses. Nicete Bruno, Mauro Mendonça, Dira Paes, Elizangela, nomes consagrados dando credibilidade ao elenco.
Ísis Valverde tentando parecer meiga demais, mas com um sotaque gostoso. Cláudia Raia segura o elenco todo lá embaixo com suas pernas gigantescas elevando a história ao nível da exuberância.
Alexandre Borges afeta e desafeta com a mesma rapidez que possui pra incorporar personagens logo de início. Murilo Benício está em um ambiente seguro, a comédia, as caras e bocas desorientadas vão tomar corpo e arrasar em menos de dois meses, pode apostar.
Jorge Fernando devia formar equipes dentro da própria Globo para ensinar como se dirige novela para o horário das 19h. Não dá pra fazer uma crítica de “TiTiTi” maior que isso, nem com mais densidade.
Tem que ser rápida, cortada, ágil pra tentar mostrar o clima da novela. Vai dar o que falar, porque muitos personagens nem apareceram ainda.
E se ficou alguma dúvida, é claro que a gente adorou.
Ah peraí, faltou dizer uma coisa:
Lá vem ela, sorrindo, brilhando, confirmando porque é tão adorada. Seja bem-vinda novamente aos nossos lares Malu Mader, você fazia muita falta!
(matéria publicada no Estadão e no site www.tododjjasambou.virgula.uol.com.br (by Cláudia Assef)

A não ser que você tenha passado o ano de 2009 em Marte ou isolado numa montanha remota sem acesso a um mísero radinho de pilha, a música I Gotta Feeling com certeza martelou nos seus ouvidos – mesmo sem o seu consentimento. Com base eletrônica e letra alto-astral, este foi o grande hit radiofônico do ano passado e lançou o francês David Guetta ao mais alto escalão da música pop – ao lado do grupo Black Eyed Peas, com quem o DJ dividiu a produção.
Do blog de André Forastieri – visite http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/page/10/

Roberto Carlos é como arroz com feijão, carnaval e a seleção. Não amá-lo é falta de patriotismo. Na minha geração mais ainda – fomos os primeiros que crescemos sob o reino do Rei Roberto, primeiro e último.
Meu primeiro disco, um compacto, tem Quero que Vá Tudo Pro Inferno. Ganhei da minha tia Lourdes, com quem assisti muitos programas Jovem Guarda. Eu tinha dois anos e meio de idade.
Ano após ano amadurecemos com Roberto Carlos – os hits no rádio, quando nem FM existia; as raras aparições na TV; os filmes sempre repetidos nas sessões da tarde; os aguardados especiais de Natal.
Eu achava que os caracóis nos seus cabelos eram caracóis mesmo, uma ideia bem nojenta. E imaginava a montanha como o Olimpo, cercada por nuvens eternas.
Nunca tivemos artista tão popular quanto Roberto Carlos, dentro e fora do país. Nunca houve cantor ou compositor mais influente em nossa cultura. Não há quem se aproxime da lenda do Rei. Ele é intocável – e ao mesmo tempo é parte da família. Quando perdeu sua mãe, poucos dias atrás, o Brasil ficou triste.
Tudo isso – e não dá para ouvir Roberto Carlos cantar. Tem 35 anos que RC decidiu ser chato. Vamos escolher um marco? El Dia Que Me Quieras, 1973. Ele gravou muita besteira antes, e acertou umas boas depois.
Mas se é para definir um antes e um depois, um RC popularíssimo, mas conectado com seu tempo, e um RC que automaticamente joga para torcida custe o que custar, nada como esse bolerão. Ele tinha 32 anos.
Dali para frente, RC alisou o cabelo, adotou terninhos comportados e se rendeu ao Canecão-style. Encheu o palco com uma orquestra de fazer inveja a Frank Sinatra, mas suas canções ganharam arranjos de irritar até o Ray Conniff.
A pieguice, que sempre esteve lá, dominou sua obra – Amigo, Guerra dos Meninos, e, símbolo máximo da nova fase, Emoções, sua My Way / New York, New York.
Não gostar de Emoções equivale mais ou menos a detestar a Baía de Guanabara. E, de fato, não consigo não gostar da canção. Mas consigo reconhecer que é tudo que eu acho chato em Roberto Carlos, a quem admiro como criador.
Mas artista é assim: quer ser amado custe o que custar. E quanto mais vai ficando sem graça, mais unânime. Esta trajetória é comum em artistas que explodiram mexendo com os hormônios das adolescentes.
Elvis é o arquétipo. Mas RC com fantasia de almirante como atração de cruzeiro para a terceira idade, sério, me deprime mais que Elvis bufando baladas para tiazinhas.
Minha fantasia era que um produtor, com toque de gênio, convencesse Roberto Carlos a sair da sua zona de conforto. Como o produtor Rick Rubin fez com Johnny Cash, nos seus poucos anos antes de morrer.
Precisava de um gênio da música e da malandragem – aê Miranda – que soubesse arrancar das entranhas do nosso cansado Rei, novas explicações para suas décadas de majestade.
Roberto Carlos fala ao meu coração. Mas faz tempo que suas palavras não me dizem nada.
É importantíssimo, se não imprescindível, se perguntar – todas as manhãs – das pequenas possibilidades que realmente queremos considerar. É preciso ter cuidado para não machucar a mais frágil das partes… nós mesmos.

Ilustração: Karina Bisch
Escaneado do site www.opequi.com (um dos mais bacanas que conheço).
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